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Jornal da Escola Secundária Henrique Medina
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O trilho da francesinha especial
Por Paulo Dias (Professor), em 2016/02/01539 leram | 0 comentários | 41 gostam
Eis que chegámos à cidade que nunca fora derrotada, a invicta e “muy” leal cidade do Porto! Por ela, D. Pedro lV de Portugal, l do Brasil, legou o seu coração, como prova de reconhecimento e gratidão aos heróis portuenses.
O relógio marcava 9h30 do terceiro dia de Outubro e o grupo da ESHM começava uma longa caminhada junto à estação de metropolitano da Trindade. O mentor do Projeto “Mexa-se pela sua saúde” pedira ao colega João Pereira, um nativo que se encontrava na comitiva “andante”, que nos orientasse, pois que os “mexidinhos” caminhavam devagar ou devagarinho, sem qualquer evidência de “stress”. Certo é que minutos depois, todos estavam na avenida mais inglesa de Portugal, os Aliados. Esta emblemática artéria da cidade sempre fez jus à velha aliança com os britânicos e aliados da 1.ª Guerra Mundial, tendo sido desenhada por Barry Parker. E aí, sobranceira à “baixa da cidade”, vislumbra-se a Câmara Municipal, um edifício inspirado arquitetonicamente nos palácios comunais do norte de França e da Flandres, com estilo municipalista flamengo. Tem amplas portas, janelas e varandas, entalhadas ou rematadas com balaústres e jarrões que se apoiam em cariátides de tradição grega. Apresenta algumas colunas dóricas, um relógio de carrilhão e uma torre central(70m), e em frente à porta e escadaria principal da edilidade, surge o poeta Almeida Garrett.
Descendo a avenida, encontramos o Palácio das Cardosas, transformado em hotel de luxo, bem como o antigo café Imperial (Com um vitral de arte déco no interior) transformado em McDonalds. No entanto, não nos cruzámos com a estátua do ardina, e olhando para um lado e para o outro, surgiram duas igrejas que limitavam o nosso horizonte: eram Santo Ildefonso, todo azulejado no cimo da rua 31 de janeiro e os Clérigos, totalmente graníticos, na rua oposta, contendo a maior torre do país (78m). Optou-se por visitar de manhã a Igreja e Torre dos Clérigos, ascendendo ao seu topo, para obter uma maravilhosa panorâmica da cidade. Porém, antes de se fazer a escalada de 240 degraus, percorremos a Rua da Fábrica, a Praça dos Leões e o Jardim da Cordoaria, onde, outrora, se encontrava a famosa árvore da forca. Por aí, decorria uma feira do livro! Estivemos ainda, à entrada de uma “catedral do saber”, a qual a inglesa “Guardian” considerou ser uma das mais bonitas livrarias do mundo, a Livraria Lello, e que serviria de inspiração a J.K. Rowling na obra “Harry Potter”.
Outra paragem da nossa caminhada foi a estação ferroviária de S. Bento, construída no local do antigo Convento de S. Bento da Avé Maria, no reinado de D. Carlos e de Dª Amélia e no seu interior encontramos maravilhosos azulejos, como a entrada triunfal de D. João l e o seu casamento com Dª Filipa de Lencastre no Porto, a conquista de Ceuta e o torneio dos Arcos de Valdevez. Daqui, fomos para a Sé, observando pelo caminho o mercado de S. Sebastião e a Rua Escura, antigo tugúrio de vidas duplicadas, pairando no imaginário, o incremento do prazer e a luxuria de outros tempos, hoje transformadas em unidades de alojamento local. O grupo visitou as entranhas da catedral, o monumento mais antigo da cidade (século Xll), cuja primeira pedra, conta-se que foi assente pela mãe de D. Afonso Henriques, Dª Teresa, vindo a ser concluída no reinado de D. Dinis. A Sé de origem românica sofrera muitas alterações ao longo do tempo, foi barroquizada pelo florentino Nicolau Nasoni, conservou-se a rosácea de estilo gótico e a capela-mor foi decorada com mármore, entre outras mutações, interiores e exteriores.
Finda a visita à Sé, descemos a rua das Flores, toda ela requalificada, com novos hotéis e “guest houses”, onde algumas frases tripeiras nos chamavam a atenção, como “oh morcom, bai-me à loja”, ou “olha-me aquela sostra a laurear a pevide”, que nos permitira o acesso ao mercado Ferreira Borges e ao Palácio da Bolsa. E neste último com fachada neoclássica, marcámos visita para a tarde. Foi uma marcação agitada porque as meninas Fernanda e Manuela, assistentes operacionais da nossa escola, passaram por alunas, uma vez que não tinham na sua posse o cartão jovem. Eu acabei por anuir na bilheteira, relativamente às tenras idades das donzelas, que aparentam obviamente jovialidade e assim, as duas conseguiram um razoável desconto no bilhete.
E como se fazia tarde, apressámo-nos nas diligências para o almoço, reservado para o restaurante Madureira. E num passo mais rápido, através da rua do Loureiro, fomos até ao Teatro Nacional de S. João, uma obra originariamente oitocentista, reconstruída no início do século XX, situada na Praça da Batalha, onde se contempla na sua fachada, quatro figuras alegóricas – a bondade, a dor, o ódio e o amor. Daqui, seguimos meio titubeantes pela rua Alexandre Herculano, até chegarmos espaçadamente em pequenos grupos ao objetivo, o restaurante da comezaina. No seu segundo andar, alocamos a nossa presença gastronómica, comendo típicas “francesinhas especiais”, acompanhadas pela cerveja de pressão, o “fino”, não esquecendo que, quem quisesse pedir “moletes” (pão) para outros acepipes podia fazê-lo, pena que ninguém tivesse pedido “tripas à moda do Porto”, pelo que ganharia mais ritmo para fazer o resto da caminhada. E a terminar o repasto, todos pediram o seu almejado “cimbalino”, bem pelado!
Numa saída algo confusa, todos queriam urgentemente chegar ao Palácio da Bolsa, muitos volveram à Batalha, enquanto eu e um pequeno grupo fomos pelas Fontainhas, trilhando calçadas gastas pelo Deus Cronos e talhadas por uma irregular topografia. Nessa zona, com vista para o Douro, onde navegavam descansados rabelos e sumptuosos ferries, observámos um casario embutido nas colinas pedregosas, percorrendo vielas e ruelas difíceis, por serem íngremes e sinuosas. Contornámos a muralha fernandina, passámos ao lado da metálica Ponte D. Luís l, avistámos o local da antiga ponte das barcas e através de um túnel acedeu-se ao Jardim do Infante. Começara de seguida, a visita ao Palácio da Bolsa que nos permitiu conhecer o gabinete que fora de Gustave Eiffel, o primeiro telégrafo na cidade, o Tribunal de Comércio, os quadros régios, os gessos pintados que pareciam madeiras ou metais, os pavimentos entalhados de madeiras exóticas como mogno, jacarandá, pau-rosa e carvalho francês, o pátio das nações com o seus granitos e mármores, os lustres de Soares dos Reis e o célebre salão árabe, obra grandiosa legendada a ouro, com carateres arábicos que cobrem o teto e as colunas, sobressaindo também maravilhosos estuques ao gosto neopalaciano inglês. Este salão é a principal sala de visitas do Porto!
Finda a visita ao palácio, ainda se tentou entrar na igreja de S. Francisco, monumento esplendoroso do barroco, famoso pelas suas catacumbas, mas havia um casamento que nos impedira tal intento. Então, decidimos ir ao Cais da Ribeira, passando pela mítica Casa do Infante, esse mesmo, o Infante Santo, conhecido para o mundo, como Henrique, o Navegador. Fizemos uma breve paragem na Praça da Ribeira para fitar o célebre cubo de José Rodrigues, defronte de S. João Batista, encontrando-se este, num nicho de um fontanário, estando acompanhado e enquadrado por um solene casario. Aí vimos um homem-estátua a fazer de sapateiro, olhando para o infinito e escutámos múltiplas melodias de músicos de rua, que deliciavam os ouvintes passeantes. Depois flectimos à direita, junto ao Hotel Pestana, para atravessarmos o famoso muro dos bacalhoeiros, onde se sentira uma profusão de aromas. Daqui, seguimos para a Alfândega, junto ao Museu dos Descobrimentos, passando sob toda aquela arcaria de Miragaia, visualizando medições de cheias antigas do Douro registadas nas suas paredes. Atravessámos uma ponte metálica e depressa chegámos à Pasteleira, depois de cruzarmos toda uma área que permitia o acesso ao Palácio de Cristal e depois, a Ponte da Arrábida. A partir daqui, o grupo fragmentou-se muito e alguns elementos já tinham chegado ao Castelo da Foz, capitaneados pelo ultra-rápido professor Américo. Entretanto, o sol quedava-se sobre o mar e à beira-rio, as gaivotas enraivecidas e gulosas presenciavam a cena de uma garça que devorava empenhadamente um peixe. Passamos junto à estátua do Anjo Mensageiro de Irene Vilar e entramos no bairro piscatório da Cantareira, que se estende até ao farol mais antigo de Portugal (1527) e capela de S. Miguel. Paramos para beber uma “birra” no “Brasserie de l´Entrecôte”, onde o colega Boaventura formulava dissensões para saber qual seria a melhor bebida para uma tarde quente. Quando nos levantamos das cadeiras, as pernas já estavam mais rijas do que nunca. Mas não se podia desistir de chegar à Foz, pois os colegas dianteiros já o tinham feito. Atravessámos lateralmente o jardim do Passeio Alegre e rapidamente se chegou à praias do Ourigo e dos Ingleses. Fez-se seguidamente todo passeio da marginal atlântica (Avenidas Brasil e Montevideu) até ao Castelo do Queijo, passando pelas praias do Molhe e do Homem do Leme. E chegados ao Castelo do Queijo (Fortaleza de S.Francisco Xavier), num café que lhe estava próximo, o Senhor António, a Dona Alice, a Professora Salomé, o Professor Marcelo e outros convivas conversavam calmamente, admirando por vezes, o Parque da Cidade que se estende até ao Atlântico (O maior parque urbano da Europa e o único que vai até ao mar). Num puf, o Professor Avelino espreguiçava-se e noutro puf, o professor Américo dormia como um anjinho papudo, verdadeiramente cansadinho.
Até que chegámos nós, para juntar todo o grupo e voltarmos a casa, num dia consideravelmente diferente e muito preenchido. Mas, como toda a cidade importante do mundo, o Porto que não pudemos visitar, lembrando agora e no correr da tinta, tem uma escultura da “Pop Art Americana” do casal que vive em Nova Iorque, Claes Oldenburg (sueco) e Coosje Van Bruggen (holandesa), em Serralves, no passeio dos liquidâmbares! Se Filadélfia apresenta a mola da roupa, Tóquio tem a serra, Paris tem em La Villete, a bicicleta,a invicta, por sua vez, apresenta a colher de jardineiro (Conhecida por Plantoir), e também por isso, se diz que o “Porto é uma nação”! A “”New York Times” referiu este ano (2016), que é impossível não gostar de tudo o que há no Porto! Há dúvidas disso?!

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