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Jornal da Escola Secundária Henrique Medina
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A violência no namoro
Por Miguel Durães - Psicólogo Spo (Leitor do Jornal), em 2016/01/25374 leram | 0 comentários | 39 gostam
Caro leitor, estudos recentes realizados em Portugal concluem que a violência no namoro entre jovens é cada vez mais precoce, sendo que um em cada quatro jovens no nosso País já foi vítima de violência no namoro!
Este assunto torna-se ainda mais preocupante quando se conclui que, na sua generalidade, as vítimas e agressores não percebem que a violência não é aceitável, chegando, na maioria dos casos, a tolerar e a desculpabilizar a violência.
São muitos os casos em que existe a ideia de que o «amor é posse», que “se és minha namorada, não podes falar com mais nenhum rapaz”, etc. No entanto, considero ser cada vez mais importante que se fale acerca destes assuntos, e mitos associados, em casa ou na escola, sendo que se deve educar as crianças e os jovens para a ideia de que, numa relação saudável, nenhum dos dois “manda” no outro e que ambos devem demonstrar afeto, respeito e apoio mútuo.
Para encarregados de educação é importante, especialmente se têm filhos adolescentes, desdramatizar algumas situações e até assumir como sendo “normal” a existência de alguns conflitos num casal de namorados. No entanto, é muito mais importante educar os mesmos com o exemplo que damos em casa e, acima de tudo, passar a mensagem de que numa relação é importante a procura do “equilíbrio” para que se conclua que numa relação deve haver “cedências de parte a parte”. Discutir e discordar de alguma situação, não é a mesma coisa que ser violento e agressivo. É por isso muito importante que se eduque os jovens a distinguir um conflito de uma situação de violência, uma vez que esta tende a ocorrer de forma repetida e agravar-se no decorrer do tempo.
Numa situação de violência, um dos parceiros do casal tenta exercer o controlo sobre o outro, não respeitando as suas opiniões e ideias, sendo que muitas vezes acabamos por aceitar estar em relações violentas porque acreditamos em certos «mitos», que condicionam as nossas escolhas e comportamentos apesar de não corresponderem à realidade.
Para os jovens, e em especial para os nossos alunos, deixo aqui alguns exemplos de alguns «Mitos», transcritos de um estudo desenvolvido na Universidade do Minho pelas Professoras Doutoras Carla Machado, Marlene Matos e Cláudia Coelho:
“1. Príncipe Encantado: Ensinaram-nos toda a vida que, um dia, encontraremos uma pessoa muito especial, e que o amor, por si só, pode transformar o(a) outro(a). A ideia de “amor romântico” pode fazer com que não vejas o que se está a passar de errado na tua relação. O mito do «Príncipe Encantado» faz com que só vejamos, no outro, coisas positivas, desvalorizando quando somos maltratados.
2. É ciumento(a) porque me ama: Os ciúmes servem de desculpa para controlar a outra pessoa, mas, muitas vezes, são interpretados como provas de amor. As manifestações excessivas de ciúme pretendem manter-te dependente dele(a), sem que possas relacionar-te com outras pessoas com quem também te apetece estar. Se ele(a) não controla os seus ciúmes e tu te opões, podes chegar a insultar-te e mesmo agredir-te fisicamente.
3. Entre marido e mulher, ninguém meta a colher: A violência nas relações entre namorados ou entre pessoas casadas é um problema social e um crime público, que afecta, não só as pessoas directamente envolvidas, mas toda a sociedade, pelas consequências que envolve. Somos todos(as) responsáveis, e devemos denunciar as situações de violência.
4. A violência tende a terminar se nos casarmos ou vivermos juntos: A maioria das relações conjugais violentas já o eram antes do casamento/união de facto. Se uma pessoa é violenta durante a relação do namoro, isso pode significar que acha “normal” esse tipo de comportamento numa relação a dois e, muito provavelmente, irá ter o mesmo tipo de reacções no futuro e/ou em futuros relacionamentos.
5) A violência só acontece em meios sociais desfavorecidos: A violência nas relações de intimidade ocorre em todos os meios sociais e culturais. Acontece a jovens, a pessoas mais velhas, casadas, ou entre namorados e pessoas divorciadas/separadas.
6) Quanto mais me bates mais eu gosto de ti: A violência numa relação de intimidade causa intenso sofrimento físico e psicológico, tendo um impacto muito negativo no bem-estar e na saúde da vítima. As agressões não devem ser nunca entendidas como prova de que o outro “se preocupa comigo” ou que “me dá atenção”!
7) Há raparigas que provocam os namorados, não admira que eles se descontrolem: Gostar implica respeitar por aquilo que ele é, mesmo que algumas vezes não concordemos com aquilo que ele(a) pensa ou faz. Nenhum(a) namorado(a) tem o direito de agredir o(a) outro(a) quando o(a) própria ou a outra pessoa discorda de alguma coisa, de alguma opinião ou de algum comportamento.
8) Ele(a) só é violento(a) quando bebe álcool em excesso ou consome drogas: O consumo excessivo de álcool e/ou drogas serve apenas como argumento do(a) agressor(a) para desculpabilizar o seu comportamento e para não se responsabilizar pelo mesmo. Os consumos podem facilitar a violência, mas apenas em quem já manifesta a tendência para ser violento.
9) Os rapazes nunca são vítimas de violência: Vários estudos sobre esta temática apontam que os rapazes também podem ser vítimas de violência física, emocional e/ou sexual.
10) Não existe violência sexual no namoro: A violência sexual inclui não só a violação e/ou tentativa de violação, mas também beijos, apalpões e outro qualquer tipo de contacto de tipo sexual não desejado. Algumas das estratégias utilizadas na tentativa de exercer este tipo de violência podem envolver o recurso à chantagem, à manipulação, a ameaças, à força ou à incapacitação através de álcool ou drogas. Uma sexualidade feliz e saudável depende do consentimento e vontade dos dois.
11) Uma bofetada ou um insulto não são violência: Qualquer ato de agressão é violência, o mesmo sucede com a violência emocional. Mesmo as formas aparentemente “menores” de violência podem ter consequências muito negativas. Nenhum tipo de violência é aceitável.”


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