O Rodriguinho
Jornal da Escola Básica António Rodrigues Sampaio
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Da «Saga» ao Adamastor
Por Rodriguinho (Professora), em 2016/02/221051 leram | 0 comentários | 202 gostam
Alunos das Marinhas em visita de estudo ao Porto - Da «Saga» ao Adamastor.
Eram 8.30 da manhã. Dois autocarros surgem na Rotunda N. Sra. de Fátima sob o olhar ansioso dos alunos no interior da escola. Com as mochilas às costas, telemóvel a postos e algumas câmaras fotográficas a tiracolo, assomam a cabeça junto ao portão para ver em qual deles, os grandes navios terrestres, vão embarcar rumo ao Porto. É que hoje é dia de Saga e de ver, quem sabe, o Adamastor... Mais descontraídos, os mais velhos do PAA esperam fora do portão com os fones nos ouvidos e toda a parafernália necessária a quem deve dar o exemplo e está habituado a estas andanças.

A Viagem até ao Porto
Feita a chamada em voz de comando, lá partem os navios rumo à margem do Douro. O tom de voz sobe, todos querem discutir o resultado do último Benfica-Porto, enquanto o capitão lá vai lembrando as normas a bordo e os locais de atracagem, para evitar que alguém se perca lá para o Cabo das Tormentas. Mas agora as vias são excelentes e os pilotos experimentados, e rapidamente se chega à Cidade Invicta, se passa pelo Dragão, ainda sem fogo, são apenas 9.30 da manhã. Na margem do Douro, com as águas a refletirem o sol da manhã, o ondulante casario e as pontes, eis que surge por entre o estribilho outro Veloso que não de «Os Lusíadas», o Rui, que faz sentir intensamente o Porto.

Igreja de S. Francisco
Palácio da Bolsa à direita, eis a primeira paragem. Um após outro, surgem dos navios circulantes rostos sorridentes e olhares inquiridores. Depressa a turba desce a rua e já sobe a escadaria até à igreja franciscana, que nada deve à máxima do irmão de Assis que fundou a ordem. A arquitetura sóbria e granítica exterior esconde o brilho, esplendor e riqueza de um dos exemplos maiores do Barroco em Portugal e no Mundo. Da árvore de Jessé, às armas franciscanas, os braços cruzados, tudo é em fino ouro de grande quilate. Entre ahs e ohs, os mais atrevidos vão olhando à espanhola, não fossem os olhos enganá-los.
Porém, já menos temerários e mais sensíveis, desceram eles às catacumbas da igreja, e entre crânios e ossadas, afugentaram alguns espíritos atormentados que por lá andassem. Foi um banho de arte, um livro aberto de História donde saíram para aquela luz matutina refletida pelo Douro adormecido e pachorrento.
Aí, na Praça do Cubo, retemperam-se as forças e regressou-se definitivamente ao mundo dos vivos, numa azáfama de comércio e turismo, numa mistura com culturas orientais. Mas faz-se tarde! Sobe a calçada estudante, que a vida custa! Entra no grande estômago do navio que te leva até Campo Alegre, onde poderás descansar junto ao rapaz de bronze.

Jardim Botânico
A enorme casa cor-de-rosa, com a escadaria em leque e rodeada de um jardim magnífico, espanta até visitantes repetentes. «Nunca pensei que fosse tão grande», «Era mesmo do avô de Sophia?», ouve-se com ar incrédulo.
Formam-se três grupos junto de três guias da Universidade do Porto. Estilos diferentes, mas profundos conhecedores dos mais incríveis segredos da casa e do jardim. A casa continua um mistério, as portas fechadas não permitem senão olhares curiosos espelhados pela luz exterior. Mas a flora, numa enorme variedade e em perfeita harmonia, leva-os pelos recantos do Jardim dos Jotas com o seu caramanchão e pérgula, até ao lago junto do qual Sophia viu pela primeira vez o rapaz de bronze».
A «Saga» passou de repente das aulas para a casa e arvoredo, e foram muitos ainda a procurar vestígios de Hans, sobretudo do lugar donde ele veria o mar e o caminho para Vig, a ilha.
Mas o maior espanto surgiu com o percurso pelo «vale das almas», no cemitério de Agramonte. Depois da sepultura do cineasta Manoel de Oliveira, apareceu ao fundo, indicado pelo funcionário com colete verde, o jazigo do avô de Sophia, exatamente igual ao descrito na obra. Reza a lenda que é daí que parte em dias de tempestade. Também daí partiram os estudantes em direção à alta torre azul do Shopping Cidade do Porto, não fosse essa a cor emblemática da cidade, ainda com os versos de autora ecoando: «A força dos meus sonhos é tão forte, / Que de tudo renasce a exaltação /E nunca as minhas mãos ficam vazias.».

Shopping Cidade do Porto
Torre dos tempos modernos, com escadas rolantes e ascensores em vidro, catedral do comércio, esta é a delícia da juventude. Num ápice, o grupo desfez-se pelos corredores como impelidos por vento tempestuoso ou atraídos pelo cheiro da comida. A maioria procurou os dois arcos da McDonald’s, uma espécie de religião americana com imensos fiéis, seguida de perto pela Pizza Hut, mas a léguas de outras com tradição local, esta sim para os mais velhos.
Dos hambúrgueres às pizzas, destas aos gelados, tudo foi absorvido rapidamente, afinal o tempo é curto e «quem vai para o mar avia-se em terra». Houve, porém, os que aproveitaram para ver as últimas modas e fazer o gosto aos olhos, afinal ir ao shopping e nada comprar era como não ver o papa nesta catedral do consumo.

Teatro : «Aquilo que os meus olhos veem ou o Adamastor»
De volta aos navios circulantes, a viagem até ao auditório de Lavra foi animada e em velocidade cruzeiro. Mas o mar é agitado e, com o ventre cheio, às vezes a carga vai ao mar. Não foi grave!
A sala estava cheia e à espera. O pano subiu e uma nau quinhentista baloiçava. Mestre João lembrava a recolha do náufrago Manuel, que sonhou uma luta contra o Adamastor. Dos diferentes tempos da história, ficou decerto o momento presente em que um marinheiro, de voz rouca e desafinada, interagiu com os alunos do primeiro balcão, interrompendo-se, contudo, a magia e o dramatismo da peça. Não faz mal, todos se divertiram!
Passaram quinhentos anos e os olhos veem agora outros adamastores, outros medos, outros perigos na sociedade que também se esfumam entre o vento.
Dali ao Mar Shopping, foi tempo de mais um gelado para uns, para outros uma visita ao duplo arco-íris para renovar forças. Era tempo de aportar nas Marinhas, o sol escondia-se para lá do Adamastor.

Pedro Faria
Professor

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