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FILOSOFIA E LITERATURA
Por Carlos Frazão (Professor), em 2016/03/01248 leram | 0 comentários | 61 gostam
Para entender as relações possíveis entre a Filosofia e a Literatura.

(Os alunos poderão explorar este tema a partir de sugestões dos programas curriculares)
Platão exige aos defensores da Poesia que argumentem sobre a sua utilidade e necessidade numa “cidade bem administrada”. Evidentemente, que tudo o que se pudesse dizer nunca convenceria o autor da República. Reconhecendo o seu encantamento, o seu poder de sedução, a poesia, e a arte em geral, torna-se um obstáculo ao conhecimento da realidade. Ela condena-se, ingenuamente, a ficar prisioneira numa teia de ilusões, ao gerar um mundo irreal de aparências. Como diz Arthur Danto: “A Teoria de Platão sobre a Arte é a sua Filosofia, e, desde então, a Filosofia ao longo dos séculos tem consistido em colocar emendas no testamento platónico; a Filosofia mesma pode ser o banimento da Arte – de tal forma que o problema de separar a Arte da Filosofia pode ser combinado com o perguntar o que seria a Filosofia sem a Arte”. Quer dizer, se a arte é inútil, é paradoxal, a essa inutilidade, o intelectualismo socrático-platónico, ao afirmar a conceptualização da realidade a partir de um quadro epistemológico onde o que é belo é necessariamente racional. Por aqui vão correr e discorrer várias disputas e propostas de leitura que atravessam o pensamento filosófico, nessa condição inevitável de os filósofos nunca estarem de acordo. Escolho R.Rorty e a proposta – fracassada ou não – de pensar os dois pólos como comensuráveis. A filosofia é ela mesma o produto de uma eficácia de diferenças, porque “implacavelmente parcial e excludente”( Rorty). O que permite mergulhar em várias perspectivas – nenhuma com o estatuto de privilegiada - , como a da criação ilimitada da expressão poética. Se a realidade só pode ser descrita contextual e circunstancialmente, é então possível criar “comunidades de justificação conversacional”. Em síntese, qual o lugar da literatura na ausência de qualquer forma reconhecida de superioridade conceptual? O lugar que lhe é inerente, isto é, “a literatura, com a sua abertura para a diversidade, traz consigo a possibilidade de ampliação do nosso horizonte de identificação moral, contribuindo, desse modo, para uma perspectiva de maior tolerância”. É pelo texto literário, na sua idiossincrasia, que entenderemos melhor a complexidade das sociedades, no confronto entre si e de si, que se pode reformular o próprio imaginário de construções sociais, culturais, utópicas. É no interior das narrativas que se recriam as premissas de abertura temporal e espacial, a consciência da necessidade da solidariedade e da convivência de todos, no quadro da contingência e relatividade do que é humano. “Minha utopia (...) é uma em que os poetas, ao invés dos cientistas, sacerdotes, ou profetas religiosos, são vistos como vanguarda da civilização e são os heróis e as heroínas da cultura” (Rorty). Uma proposta convincente, pelo menos no sentido de reconhecer – como se se tratasse do inconsciente freudiano – que a imagética literária já produziu muitos mundos e há muitos outros “modos de fazer mundos”(N.Godmann)


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