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Eu tenho sonhos revolucionários
Por Ana Araujo (Leitora do Jornal), em 2020/06/12215 leram | 0 comentários | 9 gostam
Memória e resistência na literatura infantojuvenil de bell hooks nos fazem refletir sobre o papel da leitura literária na educação antirracista da infância
O livro infantil de bell hooks* "Meu crespo é de rainha" foi publicado pela primeira vez no Brasil em março de 2018, pela editora Boitatá, em homenagem ao Dia Internacional da Luta Feminista. Não à toa, a publicação brasileira foi dedicada às “futuras mulheres guerreiras deste país”. Em novembro de 2019, já estava na sua 3ª reimpressão, com tiragem de 3 mil exemplares.

Na obra, as ilustrações são do escritor americano Chris Raschka, que se utilizou da técnica de pintura em aquarela para dar forma, cor e movimento a diferentes penteados, cortes e tipos de cabelos crespos, “cobrindo cabeças cheias de estilo”. Pinturas de meninas afrodescendentes, negras e pardas, estampam sorrisos, brincadeiras, dança e muita alegria, de modo que não se sabe se são as imagens que ilustram o texto verbal ou se é este que as acompanha. Numa bela harmonia, palavras e imagens se complementam; parece até que dançam juntas. Mesmo o tamanho das letras se altera, acompanhando o movimento sugerido pelas imagens.

Pela exaltação do cheiro, da textura, da forma e do balanço do cabelo crespo, o livro oferece às crianças uma leitura com potencial para mobilizar a imaginação infantil e o sentimento de representatividade, neste caso, por parte daquelas cujo cabelo é contemplado na homenagem feita. As frases que encerram o texto – “Menininha, você é uma gracinha! Nosso crespo é de rainha!” – exemplificam a proposta de se estabelecer um diálogo com a possível pequena leitora, chamando-a a se identificar com o universo narrado.

Sintonizada com Girardello (2011), acredito que a “experiência poética” ou a “fruição estética”, ao mesmo tempo em que mobiliza o imaginário infantil, confere às crianças material simbólico para o caro trabalho de “conhecer o mundo e criar dele uma representação em cuja verdade confiam” (p. 85). O contato estreito da criança com a literatura – “porta para variados mundos que nascem das inúmeras leituras que dela se fazem” (LAJOLO, 2018, p. 55) – tem significado vital para o incremento das experiências imaginativas infantis.

Alinhada com o pressuposto de que a imaginação está na base de todo potencial criativo da atividade humana, seja ela de ordem cultural, científica, artística ou técnica (Vigotski apud Girardello, 2011), reconheço como fundamental o papel da leitura literária para a constituição de sujeitos potencialmente criativos, a começar pelas possibilidades de sua própria criação subjetiva. Sobre isso, Lajolo (2018, p. 59) tem a nos dizer que:
"o mundo representado na literatura – por mais simbólico que seja – nasce da experiência que o escritor tem de sua realidade histórica e social. O universo que autor e leitor compartilham, a partir da criação do primeiro e da recriação do segundo, é um universo que corresponde a uma síntese – intuitiva ou racional, simbólica ou realista – "do aqui e do agora" da leitura, ainda que o "aqui e agora" do leitor não coincidam com o "aqui e agora" do escritor (grifos da escritora)".

No meu caso, de fato, quando procedo à leitura do livro em destaque, meu “aqui e agora” não só não coincide com o da escritora como também está distante, pelo menos no sentido temporal, da “meninha” que outrora fui. Contudo, ao compartilhar o universo apresentado pela autora, pude recriar o meu universo infantil, presente para sempre nas minhas memórias.

Embora nem de pele parda, nem de pele preta, fui criança de cabelo crespo. Cabelo que crescia para o alto; cabelo que, confesso, aprendi a esconder no próprio ambiente doméstico, onde ele era cortado ou alisado à força. Cabelo dos sonhos era aquele que eu imaginava ter quando prendia com o auxílio de grampos uma toalha de banho na cabeça, o que me permitia imaginar um cabelo comprido, liso e balançante. Tudo isso incentivado pela figura materna, que também aplaudia a rinoplastia simulada com o uso de um pregador de roupa na ponta do nariz. E assim, escondendo os traços típicos da minha afroascendência, eu brincava de ser feliz.

“Sentadinha de manhã, esperando as mãos carinhosas que escovam ou trançam para o dia começar encaracolado e animado!”. O carinho para com o cabelo crespo da menininha da história me provoca a pensar naquilo que poderia ter sido minha relação com meu próprio cabelo, se o tratamento a ele dispensado por parte de quem dele cuidava tivesse sido diferente.

Que criança não seria feliz com o seu cabelo “lindo e de cheiro doce, macio como algodão, pétala de flor ondulada e fofa, cheio de chamego e de aconchego?” A menininha da história contada se sente segura para dizer “Pixaim, sim! Gosto dele bem assim”. Ao passo que a menininha que fui nem acendia a luz do banheiro ao seu olhar no espelho, tamanho o receio de não gostar do que visse.

Enquanto a menininha da história sente orgulho da sua “cabeleira que leva as tristezas pra bem longe”, a menininha que habita em mim sequer entrava na piscina para brincar porque era refém do penteado escovado a que tinha sido submetida, na tentativa de amenizar aquilo que a natureza havia feito de errado.

Esconder, disfarçar, corrigir. Expressões que denunciam uma educação cheia de preconceito, cujas marcas não se apagam e reverberam ainda hoje. É preciso muito amor próprio para desconstruí-las; é preciso muito estudo para compreender as razões dessa opressão contra a diversidade humana, sustentada pelo ideal de uma supremacia racial destruidora, forjado para atender interesses excludentes por natureza.

Todo fenômeno histórico só é possível de ser enfrentado na luta por espaços que cimentem a construção de outras narrativas, porquanto não há uma versão única da história. O que há são hegemonias em disputa. E no rastro dessa disputa, sempre desigual, há sujeitos que sofrem, choram e morrem.

A luta de que escolho participar é pelo terreno em que outras narrativas possam ser plantadas. Trabalhando na seara da educação, quero sonhar alto ao lado dos sujeitos históricos que “se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo”, como diria Freire (2005, p. 79).

Meu crespo é de rainha é uma obra referenciada no âmbito da literatura infantojuvenil. Muito além do seu lugar de referência, insere-se no rol de experiências estéticas necessárias à educação das crianças, sujeitos competentes dotados de autonomia para pensar, criar e agir, em meio às diversas interações que estabelecem com seus pares e com os adultos. A literatura que se faz palco para a representatividade do diverso, da pluralidade, que se propõe a ser lugar de fala para quem historicamente foi calado alimenta sonhos revolucionários como os meus.
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*Gloria Jean Watkins é o nome de batismo da intelectual, professora, escritora e ativista social estadunidense bell hooks (em letra minúscula), pseudônimo por ela adotado em homenagem à sua bisavó, Bell Blair Hooks. Nascida em 1952, em Hopkinsville, uma cidade rural do estado americano de Kentucky, bell hooks escreve seu nome em letras minúsculas como forma de reivindicar ênfase às suas ideias em detrimento de sua pessoa. Formada em literatura inglesa pela Universidade de Stanford, hooks é autora de diversos livros, incluindo obras destinadas a crianças. Em sua trajetória acadêmica, conheceu e tornou-se admiradora de Paulo Freire, cujas ideias inspiram o pensamento da escritora. Em seu trabalho intelectual e militante, hooks é reconhecida pelo debate que intersecciona questões de raça, classe e gênero em diferentes áreas, sobretudo na pedagogia, na história da sexualidade e do feminismo e na cultura. Concebe a prática pedagógica como um ato político e de resistência nas lutas antirracista e anticapitalista.

Referências:

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.
GIRARDELLO, Gilka. Imaginação: arte e ciência na infância. Pro-Posições, Campinas, v. 22, n. 2 (65), p. 75-92, maio/ago. 2011.
LAJOLO, Marisa. Literatura: ontem, hoje e amanhã. São Paulo: Unesp, 2018.

Sobre bell hooks:
 
www.boitempoeditorial.com.br/autores/inicial=B
www.editoraelefante.com.br/quem-e-bell-hooks/


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