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Gelateca, livros e leituras
Por Ana Araujo (Leitora do Jornal), em 2020/03/25360 leram | 0 comentários | 13 gostam
Quando a vida ordena uma pausa coletiva
Há que percorrer os caminhos de dentro*

Imagine uma geladeira instalada no meio do pátio de uma escola funcionando a pleno vapor sem necessidade de energia elétrica. Imagine ainda que, para abastecer essa geladeira, são necessárias coisas dadas a alimentar a alma. Imaginou? Pois saiba você que ela existe! No último dia 11 de março, quem transitava pelo pátio azul do CEFET no Maracanã, por volta do meio-dia, presenciou, mesmo que de longe, o evento de inauguração da Gelateca, uma geladeira que foi transformada numa biblioteca. A proposta é que a comunidade escolar abasteça a geladeira de livros ao mesmo tempo em que vai se servindo das obras que lá forem colocadas, num movimento colaborativo. A ideia de instalar uma geladeira-biblioteca na escola foi de uma ex-aluna do curso técnico de Edificações que cedeu a geladeira da sua própria casa para a comunidade cefetiana, após pintar o eletrodoméstico com a ajuda do namorado e da mãe. No bojo do projeto de extensão Clube de Leitura, sob coordenação de duas docentes de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, a Gelateca do CEFET/RJ tem tudo para funcionar como um ponto de referência aos integrantes da comunidade escolar (e mesmo extraescolar) interessados na leitura nas suas diferentes dimensões.

Nós que já somos de casa e nos sentimos à vontade para abrir a geladeira, ou melhor, a Gelateca, experimentamos o gostinho de tê-la tão disponível e ficamos, agora, com a expectativa de vê-la funcionando novamente. Isto porque, na mesma semana em que ela foi inaugurada, interditaram-na. Não ela exatamente, mas nós que a faríamos (faremos!) funcionar. Com a chegada do novo coronavírus ao estado do Rio de Janeiro, fomos forçosamente postos para o lado de dentro, emparedados. Sem nos perguntarem qual era a condição desse dentro, ordenaram-nos que entrássemos. Contraditoriamente, mesmo aqueles que têm a rua como “lar” vêm sendo conduzidos para dentro, ainda que temporariamente, numa medida que pretende conter a disseminação do vírus.

Em tempos de isolamento social provocado pela pandemia do novo coronavírus, muito se tem falado sobre a leitura como recurso estratégico para o afastamento do tédio, da solidão e do vazio que porventura batam à nossa porta. Livros estão sendo disponibilizados para download gratuito, enquanto livrarias oferecem delivery de títulos à venda nas suas lojas físicas, agora fechadas. Parece que o momento é muito propício a quem quer colocar a leitura em dia. Se muitos são os que querem atualizar suas leituras, talvez poucos tenham condições reais para fazê-lo neste contexto de tanta incerteza, quando a preocupação maior é preservar vidas.

Antes de ser um passatempo ou um refúgio para dias caóticos, entendemos a leitura como um direito ou bem cultural (PETIT, 2014) cujo acesso deveria ser assegurado a todos, do início ao fim da vida, na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença. Alinhamo-nos ao pensamento da antropóloga francesa Michéle Petit quando afirma que os bens culturais, a que todos temos direito, “contribuem, em todas as idades da vida, à construção ou à descoberta de si mesmo, à abertura para o outro, ao exercício da fantasia, sem a qual não há pensamento, à elaboração do espírito crítico” (PETIT, 2013, p. 23). No que tange à leitura, em particular, a pesquisadora destaca que “o leitor não consome passivamente um texto, ele se apropria dele, o interpreta, deturpa seu sentido, desliza sua fantasia, seu desejo, suas angústias entre as linhas e as mescla com as do autor” (PETIT, 2013, p. 27).

Entendemos que este “trabalho psíquico”, como assim a autora denomina a relação do leitor com o texto, acontece, todo ele, impregnado pela materialidade do meio ideológico e social, porquanto “a consciência individual é um fato socioideológico” (BAKHTIN, 2014, p. 35). O próprio autor russo nos ajuda a entender esse conceito quando diz que “a consciência só se torna consciência quando se impregna de conteúdo ideológico (semiótico) e, consequentemente, somente no processo de interação social” (BAKHTIN, 2014, p. 34).

Dessa forma, por ocasião de qualquer leitura, a relação que estabelecemos com o texto é sempre atravessada pela realidade material concreta onde nossa subjetividade se constrói. No momento em que vivemos uma crise de ordem planetária em decorrência da pandemia do coronavírus, nada grita mais alto do que o direito à vida, à sua preservação. Acontece que isso não se dá sem as contradições inerentes ao modo de produção e reprodução da vida do sistema em que estamos enredados. Em ocasiões como esta, elas se evidenciam mais do que nunca.

O que será da nossa realidade social após essa crise? Como gostaríamos que ela fosse? Quem pode torná-la concreta? Nossas leituras não serão mais as mesmas porque nós não seremos mais os mesmos. As obras disponíveis na Gelateca da nossa escola serão lidas com outras lentes. Como dissemos anteriormente, nada, neste momento, é mais importante do que a preservação da vida. Por que, apenas agora, aquilo que deveria ser o postulado fundamental da existência humana se torna a ordem do dia? Se não temos como saber o que está por vir, já passou da hora de definirmos, de uma vez por todas, a vida como prioridade.

*Título inspirado num diálogo entre os personagens Senhor Ferreira e Maria da Graça na obra O apocalipse dos trabalhadores, do escritor português Valter Hugo Mãe (Editora Cosac Naify, 2013, p. 63).

Referências:
BAKHTIN, Mikhail (Volochínov). Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da linguagem. São Paulo: Hucitec, 2014.
PETIT, Michèle. Leituras: do espaço íntimo ao espaço público. São Paulo: Editora 34, 2013.





      

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