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Jornal Escolar do Cefet - Unidade Maria da Graça
Pesquisa

Uma Análise Sociológica do Suicídio- PARTE 2
Por Bruno Barbosa (Aluno, 3AED), em 2019/07/3084 leram | 0 comentários | 4 gostam
Revisitando os Clássicos, Uma Análise Sociológica do Suicídio na Contemporaneidade. Nessa segunda parte da análise, as professoras Marcela Serrano e Valena Ramos concluem sua contribuição com o subsídio de Marx e Foucault sobre o tema suicídio.
*O suicídio do ponto de vista marxista.*
A incursão no tema pelo autor coincidiu com o período de exílio em Bruxelas. Lá, Marx redigiu um ensaio pouquíssimo visitado. No artigo Sobre o Suicídio, o autor analisa casos de suicídios narrados nas Memórias de Jacques Peuchet, que para além dos relatos tece uma contundente crítica à sociedade burguesa e suas instituições privadas.

Peuchet foi arquivista policial e no exercício deste cargo tomou conhecimento da alta incidência desse tipo de morte na sociedade da época. Investigou as causas de tal fenômeno e elaborou uma análise consistente sobre o caráter degradante do comportamento e das relações humanas vigentes. Assim como Durkheim, Peuchet, mais do que Marx, preocupou-se com o individualismo crescente e uma certa desintegração social entre os membros das sociedades do seu tempo.

Assim como na teoria durkheimiana, para Marx, a compreensão sobre o suicídio não pode limitar-se a causas puramente psicológicas. Porém a análise marxista não se aparta da crítica às relações de opressão estabelecidas na sociedade burguesa; portanto, da condição alienante (desumanizante) imposta pelo capital ao proletariado, bem como a opressão contra as mulheres, vítimas do patriarcado que, Marx afirma enfaticamente, não foi suprimido pelas revoluções burguesas. Muitos dos casos estudados tratam de mulheres que puseram fim à própria vida diante da repressão de um poder arbitrário ao qual estavam submetidas.

Dentre os relatos estão casos de mulheres jovens que se mataram para evitar um casamento imposto ou devido a uma gravidez inesperada; os de crianças que pularam do quinto andar de um prédio para fugir da ira do pai ou a que se afogou depois de ser publicamente humilhada pelos pais. Mas há também inúmeros registros de suicídio após exoneração ou demissão. Especialmente entre os homens era comum tal atitude diante da sensação de inutilidade, uma vez desempregado acabar como um peso para mulheres e filhos.

*A medicalização da Loucura.*
Foucault demonstrará que a loucura vista apenas como um erro e sujeita ao banimento, ou mesmo à eliminação, durante a idade média, passou a ser encarada como uma ameaça à razão e um perigo à sociedade moderna, sendo submetida à internação e à medicalização. A fronteira de delimitação entre o “louco” e o “normal” torna-se domínio do saber médico, e a internação como tratamento se desenvolve a partir dos hospícios como instituições fundamentais ao controle social e disciplinamento dos indivíduos, nas sociedades capitalistas. Com isso, essas instituições impõem um conjunto saberes, técnicas, de regras e de coações sobre eles.

 A dinâmica da exclusão do louco, podendo ser qualquer um que coloque em questão valores burgueses vigentes (feiticeiras, bandidos, vagabundos, doentes, mendigos, homossexuais), assume novos contornos fazendo parte uma lógica de categorização dos “a-sociais” como sujeitos perigosos e de instituição de uma nova prática de punição associada à noção de correção e cura via enclausuramento.

Enquanto a prática de atentar contra a vida era vista como uma blasfêmia na idade média e, em caso de insucesso, punida com a morte de forma violenta, na idade moderna passou a significar uma desordem da alma e uma perda da razão e alvo do controle médico. No entanto, o ato suicida representa nesses diferentes contextos um questionamento à moralidade vigente.

Assim, a questão do louco e da loucura ou do suicídio e do suicida está imerso a prática de poder e de mecanismo de controle visando o enquadramento dos indivíduos de acordo com condutas morais vigentes e a exclusão de toda alteridade encarada como oposta e inimiga.

A ocorrência do suicídio foi registrada pelas mais diferentes sociedades ao longo do tempo tornando-se um fato social problematizado, ainda no contexto de nascimento da sociologia como ciência pelos seus fundadores, que procuraram compreender os seus determinantes sociais.

Enquanto para Durkheim as instituições sociais (família, religião, dentre outras) seriam elementos fortemente integradores capazes de inibir as taxas de suicídio. Para Marx, o caráter fortemente opressivo e arbitrário de tais instituições somado às relações de exploração econômica e dominação política explicaria o desespero de indivíduos que chegam ao limite de atentar contra a própria vida.

Na atualidade os cientistas sociais afirmam ser o suicídio um fenômeno complexo e multifatorial devendo ser compreendido através de um olhar interdisciplinar; no entanto, do ponto de vista sociológico esse fato envolve não só questões econômicas, culturais e políticas, mas também outra dimensão importante, os papeis desempenhados pelos sujeitos e o impacto dos seus atos sociais em si sobre as relações e estruturais sociais (Cf. MINAYO, 1998, p. 4).

O suicídio é no mundo a principal causa de morte, e a terceira no Brasil. Historicamente as estatísticas apontam uma elevação das taxas desse fenômeno entre indivíduos acima dos 70 anos. Entre as principais causas psicossociais identificadas em todas as faixas etárias, está em primeiro à depressão e os transtornos psicológicos e a segunda o uso abusivo de psicotrópicos e álcool. Contudo, atualmente o que tem chamado à atenção de especialistas é a crescente incidência de suicídio entre crianças e adolescentes e entre as mulheres.

“A morte autoprovocada de jovens tem crescido em todo mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). No entanto, ainda é bem pouco discutida, e vista quase como um tabu. No Brasil, a taxa de crescimento de casos de suicídio na faixa etária de 10 a 14 anos aumentou 40% em dez anos e 33,5% entre adolescentes de 15 a 19 anos. Em média, dois adolescentes tiram a própria vida por dia, segundo pesquisas. Com certeza, estes são números alarmantes. É vital que os profissionais de saúde, pais e educadores fiquem atentos aos sinais dados pelos adolescentes”.

Além dos fatores gerais apontados anteriormente, estudos interdisciplinares apontam uma lista de fatores de risco que podem levar jovens a atentar contra a própria vida, podem ser de ordem psicológica, genética ou social, por exemplo. Assim, o ato realizado pelos mais jovens encontra-se também relacionado à vivência de algum tipo de abuso sexual na infância, ou mesmo, aos dilemas e conflitos gerados diante da afirmação de identidades de gênero e de experiências afetivas e sexuais que contrariam os padrões sociais (Cf. RIBEIRO & MOREIRA, 2018, p. 2829).

Fatores apontados por alguns estudiosos, como o psiquiatra Botega, se referem também às dificuldades maiores enfrentadas pelos jovens ao terem de lidar com o “mal estar social”, dado ao desenvolvimento em curso de sua estrutura psíquica. Nessa fase, os jovens estão vivenciando um processo de maior autonomia frente à família e de distanciamento da rede de proteção que essa instituição pode lhe oferecer; fazendo pesar ainda mais a dificuldade de lidar com as expectativas e frustações, provocadas diante da impossibilidade de se adequar aos padrões idealizados de conduta, comportamento e sentimentos, exigidos nos diferentes contextos sociais.

Como também, o sofrimento causado no atual cenário de individualismo exagerado e afrouxamento os laços de solidariedade, afinidade e pertencimentos existentes entre sujeitos, grupos e instituições sociais, e de padrões mais fluidos de relacionamentos afetivos. Ou ainda, as diversas situações de opressão e violência que atingem os jovens e que são negligenciadas pelas diferentes instituições sociais, potencializado o sofrimento e o sentimento de impotência.

*Conclusão*
A revisão da literatura sobre o suicídio nos permite, em primeiro lugar, reafirmar a transversalidade do tema, sendo fundamental o diálogo entre diferentes áreas a fim de apontar caminhos eficazes para lidar com o suicídio. Em segundo lugar, destacamos a contribuição específica que a sociologia pode dar para esse debate, pois entendemos que a abordagem de Marx ainda é atual, pois muitos casos de suicídio na adolescência estão associados ao peso de algumas instituições sociais e ao poder arbitrário que elas exercem sobre os jovens. Durkheim, por sua vez, tem razão quando afirma que as forças que levam ao suicídio são, por excelência, sociais. A associação entre casos de suicídio e a instabilidade dos vínculos, típica das sociedades contemporâneas, remonta à discussão sobre anomia e os tipos de suicídio propostos pelo autor. Sendo assim, concluímos que a sociologia clássica ainda pode nos ajudar na compreensão de tal fenômeno na atualidade.


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