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Pesquisa

Uma Análise Sociológica do Suicídio- PARTE 1
Por Bruno Barbosa (Aluno, 3AED), em 2019/07/30100 leram | 0 comentários | 3 gostam
Revisitando os Clássicos, Uma Análise Sociológica do Suicídio na Contemporaneidade: do quanto a sociologia tem a acrescentar na discussão sobre saúde mental. A equipe agradece às professoras Marcela Marquês Serrano e Valena Ribeiro Garcia Ramos.
O suicídio, normalmente relacionado à saúde mental, atrai a atenção de médicos e psicólogos. Contudo, nas ciências sociais também suscita muitos debates desde o século XIX; O Suicídio, publicado originalmente em 1897, é um dos mais importantes livros de Émile Durkheim (1858 – 1917) que confirma isso. Durkheim afirma que o suicídio é um fato social, isto é, reúne todas as características comuns ao objeto de estudo da sociologia, portanto há uma dimensão sociológica do fenômeno que só o sociólogo é capaz de explicar.

Menos conhecido que o de Durkheim é o interesse de Karl Marx (1818 – 1883) sobre o tema, mas em 1846 o autor de O Capital redigiu um ensaio sobre o assunto; “Peuchet: sobre o suicídio” foi publicado originalmente no Gesellschaftsspiegel (“espelho da sociedade”), “Órgão de Representação das Classes Populares e Despossuídas e de Análise da Situação Social Atual (ano II, número VII. Elberfeldt, janeiro de 1846)”.¹ Em 2006 o texto é publicado no Brasil pela editora Boitempo, com o título Sobre o Suicídio.
Já no século XX uma referência importante no assunto é o filósofo Michel Foucault (1926 – 1984). Em 1961 publica o livro História da Loucura, tendo sua obra como foco o estudo dos hospitais, asilos, hospícios e prisões, a fim de compreender o papel deles no ordenamento social e no controle sobre aqueles que não se adequavam aos ideais e valores burgueses.

A seguir apresentaremos as considerações desses três autores e de que maneira o debate sociológico pode oferecer uma compreensão mais abrangente sobre o fenômeno na atualidade.

*O Suicídio como Fato Social*
Em 1897 Émile Durkheim publica O Suicídio, onde afirmará que, embora tudo leve a crer que nada possa ser mais individual do que atentar contra a própria vida, trata-se de um fato social por excelência. Quando “o indivíduo se sente só e desesperado, a ponto de se matar, é ainda a sociedade que está presente na consciência do infeliz, e o leva, mais do que sua história individual, a esse ato solitário”.² Para Durkheim os suicídios são fenômenos individuais, mas as causas são essencialmente sociais. Por exemplo, a crescente individualização nas sociedades modernas tornaria os indivíduos mais vulneráveis. Conclui que as causas reais do suicídio são “forças sociais que variam de sociedade para sociedade, de grupo para grupo e de religião para religião”.³ Partindo desses pressupostos elaborou uma tipologia, definindo três tipos de suicídio: o egoísta, o altruísta e o anômico.

O suicídio egoísta, segundo Durkheim, é aquele cometido por homens e mulheres que não estão bem integrados num grupo social e pensam essencialmente em si mesmos. Através de estudos onde correlacionou taxas de suicídio e contextos sociais integradores, concluiu que as taxas de suicídio, em geral, aumentam com a idade, são maiores entre homens do que entre as mulheres (especialmente as casadas e com filhos), além de flutuarem com a religião.

O suicídio altruísta é aquele onde o indivíduo morre em nome dos valores do grupo, sendo assim, esse tipo é comum entre pessoas que internalizaram tão plenamente os valores do grupo, que sequer pensam no seu direito individual à vida. Um exemplo clássico seriam os chamados “Homens-bomba” ou um torcedor de futebol que tira a própria vida diante de uma derrota do seu time.

O suicídio anômico se revela pela correlação estatística entre taxas de suicídio e as fases do ciclo econômico (crescimento ou depressão). De acordo com os estudos os índices tendiam a aumentar em momentos de crises graves ou de grande prosperidade econômica. Em momentos históricos de grandes acontecimentos políticos (como as guerras) havia uma tendência à queda nas taxas que, em contrapartida, aumentavam nos momentos de acirramento dos conflitos internos. Esse último tipo seria mais comum nas sociedades modernas onde a força de padrões de conduta e pensamento é menor sobre os indivíduos. A competição entre os indivíduos, muito forte nesse contexto, também seria determinante, pois gera uma enorme desproporção entre as aspirações e satisfações individuais.


¹MARX, Karl. Sobre o Suicídio. São Paulo: Boitempo, 2006.
²ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico.- 4ª ed. - São Paulo: Martins Fontes, 1993. P.308
³Ibidem. P. 315.


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