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A essência de viver
Por Inês Rodrigues (Leitora do Jornal), em 2013/10/01417 leram | 2 comentários | 100 gostam
Já existiram momentos na minha vida em que pensei que viver não escondia qualquer segredo. Era feliz. Bastava-me isso para continuar a viver e, por isso, preservei essa minha forma de pensar e de ver o mundo...
Infelizmente, o meu caminho tornou-se tortuoso e difícil no momento em que me deparei com a doença. Foi aí que essa visão da vida caiu completamente por terra, pois percebi a realidade daquilo que me estava a acontecer. Percebi que, afinal, a vida nos consegue pregar partidas: aquilo que num instante nos parece tão certo e seguro, pode noutro nos parecer absolutamente impossível e longínquo.
Toda a batalha que travei daí para a frente foi muito dura e complexa; não só pelo desgaste físico a que todos os tratamentos me sujeitaram, mas também pela parte emocional que uma doença oncológica proporciona. Posso mesmo dizer que a minha família e os meus amigos foram determinantes nesta luta. Sem eles eu não teria sido capaz de suportar tudo como suportei, nem teria encarado a doença como encarei. Nas alturas de maior tristeza, essas eram as pessoas que me vinham dar a mão e uma palavra de conforto, mesmo sem lhes ter pedido ajuda. Um simples olhar destas pessoas era-me bastante para perceber que queriam que eu lutasse e sobrevivesse a todo aquele suplício e isso era o suficiente para me dar força e continuar. São estas coisas tão pequenas que têm efeitos muito poderosos. Sinto-me, por isso, feliz, pois ficou sublinhado que tenho perto de mim pessoas que me amam verdadeiramente. Sem elas não seria quem sou.
Por ter sido um caminho tão longo e delicado e, ao mesmo tempo, tão rico em experiências, tornou-se uma aprendizagem. Aprendi que nesta vida o amanhã não é um dado adquirido. Não sabemos o que nos espera no futuro. Torna-se, por isso, necessário viver o hoje da melhor forma que conseguirmos. Tentar aproveitar da melhor forma o agora porque o amanhã é tão incerto como o tempo que faz lá fora.
Agora, considero que cada dia que passa é mais uma vitória que conquisto e que partilho e festejo com as pessoas que amo. Viver um dia de cada vez, ao meu ritmo, tornou-se a prioridade. Vejo o mundo com outros olhos. Sinto muitas vezes aflição quando ouço pessoas chamarem problemas a coisas insignificantes, que têm fácil resolução. Esta maneira de relativizar os problemas foi outra coisa que aprendi. Deixei de dar importância a coisas banais e passei a valorizar outras. É, para mim, essencial quando o dia acaba, sentir que o aproveitei da melhor forma que consegui, sempre junto daqueles que mais amo e que mais necessito para ser realmente feliz.
Aprendi a amar tudo o que tenho, mesmo não tendo tudo o que amo. Aprendi que sonhar não custa. Pensar alto também não. Por vezes o que mais custa é realizar os sonhos. Mas nunca devemos desistir deles antes de tentarmos tudo primeiro. Existem momentos em que só nos apetece por a cabeça na areia e virar costas aos problemas. O pior de tudo isto é que depois de levantarmos a cabeça do buraco tudo permanece igual e os problemas continuam à nossa espera, à espera de resolução.
Olhar em frente é sempre a melhor solução. Continuar a caminhar, ao nosso ritmo, ao ritmo das nossas emoções. Resolvendo os problemas pelo melhor e vivendo, com as pessoas que amamos, o que estiver para vir. Até ao dia em que o fim chegar. Mas até lá somos irremediavelmente forçados a existir. E para que essa existência não seja em vão, devemos aproveitar tudo o que de bom a vida nos reserva. É certo que “quem vai à guerra, dá e leva”, por isso também temos de estar preparados para que a vida não seja um mar de rosas. Mas quando a vida se mostrar menos bela estão pessoas ao nosso lado que nos ajudam a ultrapassar tudo isso. É necessário é ter vontade de viver! As coisas nunca são realmente perfeitas. Mas dentro de nós podemos sempre vê-las perfeitas, se tentarmos. Isso torna as coisas belas para mim.
Por agora, e entre toda esta aprendizagem, a doença permanece comigo, embora estável, mas continua a deixar marcas e interiormente ainda me faz sofrer. É certo que depois de tantos tratamentos de quimioterapia a que fui sujeita, me deixa mais feliz saber que posso fazer uma vida quase normal. Mas fica sempre na minha consciência e na minha alma a angústia de ainda não ter visto o fim desta difícil batalha.
Só um milagroso tratamento poderá acabar definitivamente com esta doença. Mesmo assim, por agora, vou vivendo feliz, mas sempre na esperança de que a medicina traga, no futuro, um presente para mim.
O que mais quero e desejo é que até se encontrar solução para o meu problema, não me faltem forças para percorrer todo o percurso até lá. Tenho ultrapassado tudo, até agora, sem grandes contrariedades. Tenho-me sentido bem para continuar a ultrapassar tudo com sucesso. Mas no fundo, tenho muito medo de um dia perder esta força. De uma coisa tenho a certeza: terei sempre comigo as pessoas mais importantes para me fazerem acreditar que tudo pode ser visto da melhor forma e me farão lutar continuamente.
Apesar de tudo isto, posso considerar-me uma adolescente muito feliz, porque sei que terei sempre as pessoas de quem gosto e que me amam perto de mim. São elas que me fazem e continuarão a fazer olhar em frente e não desistir de nada. Foram, são e serão essenciais na minha vida e, por isso, deixo aqui um agradecimento muito especial a todas elas.
Muito obrigada!


Comentários
Por Armando Pinto (Leitor do Jornal), em 2013/10/02
Gostei imenso deste texto. Está muito bem escrito e revela uma maturidade que talvez só a doença e a dor ajudaram a atingir. Desejo-te muita saúde e muita força. Precisamos de pessoas como tu para nos sentirmos mais humanos. Obrigado.
Por Inês Rodrigues (Leitora do Jornal), em 2013/10/07
É com muito agrado que recebo o seu comentário.
Muito obrigada pelo elogio!

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