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Quando o mundo desabou
Por António Ramalho (Leitor do Jornal), em 2015/07/21198 leram | 0 comentários | 57 gostam
Quando o mundo parece que nos cai em cima, há pequenas coisas que nos impulsionam. Já passou algum tempo, o tempo de melhor perceber as emoções de então e a mensagem que os habitantes das paredes do corredor da pediatria me transmitiam todos os dias.
Pérfidos dias, aqueles, quando o mundo desabou. Os dias não têm que ser assim. Foram cruéis, ingratos, languinhentos. Tatuaram o corpo e o espírito com as marcas da dor do amor.
A tenra idade prostrada não reage com a plena consciência do momento, mas manifesta uma revolta em silêncio que nos faz estremecer, desesperar, enlouquecer. O pequeno corpo, franzino, alterado, inchado de fármacos, de olhar esbugalhado sem brilho nem horizonte, com os dentes semi-cerrados tentando sorrir a ranger, em fundo de lua cheia, diante de mim sentado, fixado, rasga-me o coração que sangra sem sucumbir, porque o apelo taciturno “Ajuda-me... Fica comigo... És o meu pai que eu amo… O meu pai... Ajuda-me porque quero ficar contigo para sempre... Preciso conseguir…” é-me ordem divina.
Que fazer, meu Deus, qual deus (não há tempo para essa inútil discorrência), quem me ajuda a mim a segurar, bem firme, o pedaço de vida que nos foge por entre os dedos?
Nada parece existir que alivie esta angústia.
O que enfim existe, ao redor de uma bateria de máquinas artilhadas de potentes líquidos, cujo gotejar intermitente entoa e ensurdece, são quatro paredes de um quarto que nos isolam do mundo lá fora e nos formata o nosso próprio mundo cá dentro. Neste, apenas coexistem três seres que se amam no termo das suas forças e no limiar da razão. O tempo do caminho que se segue, de ciclo em ciclo de tratamento, nos ensinará a não perder essas forças e como e onde as ganhar. É inevitável para a nossa sobrevivência que assim seja.
O pequeno corpo deita-se enrolado na cama, de grades, em posição fetal, adormece ao ritmo das mãos que com a maior ternura do Universo o acariciam na nuca despida, aveludada e doce, para sempre…
Os outros corpos, maiores, com as marcas do vento das curtas décadas que já viveram e de outras tantas, que num ápice, se juntaram àquelas, ainda que sem as viver, levantam-se, trocam as primeiras palavras nos últimos minutos do longo dia que quase já passou. Cansados pelas suas diferentes missões diárias que convergem no mesmo e único objectivo, tocam, enfim, os lábios. Um fica, o outro vai.
Amanhã será de esperança, de mais esperança.
Saio para fora das quatro paredes, o corredor é longo, iluminado, alegremente colorido pelos bonecos sorridentes de muitas fábulas, que parecem animar à minha passagem. Acenam-me e falam comigo. É o meu momento lúdico do dia! Queria voltar à minha meninice, mas agora não posso. Talvez possa, por breves instantes…
“Até amanhã, amigos! Amanhã voltamos a brincar!...”, costumava eu dizer àqueles personagens que viviam naquelas paredes do longo corredor.
“Amanhã, Todos te esperam, acredita!...”, respondiam-me eles!...


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